Valentina, 12 anos: o gatilho de uma realidade que incomoda.

Primeiramente gostaria de dizer que este texto não defende qualquer tipo de abuso físico ou verbal e que condeno qualquer tipo de ato sexual que envolva pessoas ainda em fase de desenvolvimento físico e psicossexual, assim como qualquer agressão, furto, ofensa, desrespeito, vandalismo, etc.

Também peço desculpas por publicar este texto anonimamente, mas não o fazer implicaria em sérios prejuízos na minha vida pessoal e profissional, visto que a opinião qual defenderei muitas vezes é condenada sem que ao menos antes conclua-se a leitura, não havendo, assim, eficácia na transmissão de sua mensagem, o que, por si só, já faz com que não valha a pena me expor à distorção de meu discurso pela ignorância alheia. Vi apenas um texto na internet defendendo o que defendo aqui e o autor foi simplesmente “apedrejado em praça pública” nos comentários e teve seu texto removido. Ou seja, as pessoas não estão dispostas a permitir nem ao menos a exposição de outro ponto de vista.

O que me motivou a escrever este texto foi o caso que recentemente fora motivo de várias manifestações de revolta nas redes sociais brasileiras devido a comentários abusivos e desrespeitosos publicados no Twitter direcionados à uma das participantes do programa Masterchef Júnior apresentado pela TV Bandeirantes, Valentina, menina de 12 anos.

Como o texto já é um pouco grande, não vou explicar aqui o caso por inteiro. Caso o leitor não esteja situado, existem vários textos disponíveis na rede que fornecem mais detalhes. Mas a princípio, as manifestações tratavam a respeito dos tweets, quais continham referências diretas a abuso e estupro. Não há duvidas de que eram mensagens abusivas e desrespeitosas, tanto para a vítima quanto para sua família, e que merecem, justificadamente, serem condenadas. O que me incomodou é que, em um certo ponto, a crítica começou a se direcionar contra o fato de alguns homens na idade adulta sentirem desejo por uma pré-adolescente. O que, embora tenha se demonstrado presente durante vários períodos da história da humanidade e muitas vezes de forma muito mais bárbara e cruel, parece ainda causar grande choque.

O fato: esse desejo fora despertado em várias, e não poucas, pessoas. O que implica que essa não é uma realidade individual. Algumas dessas pessoas se expressaram publicamente de forma desrespeitosa e outras simplesmente não fizeram nada. E a questão: independente das atitudes de algumas dessas pessoas, esse desejo seria por si só sintoma de um distúrbio psicológico ou um desvio de caráter?

Minha resposta começa pela natureza do desejo, que é a expectativa de atingir algum objetivo ou satisfação. O desejo é instintivo, você não opta por qual será o objeto de seu desejo. Aquele desejo simplesmente desperta em você. A opção que temos é a de alimentar esse desejo ou não, e é aí onde entra nossa consciência.

Li comentários do tipo “Ser humano, pior raça”. Entretanto, vemos brutalidades inimagináveis no reino animal. Tais como incesto, infanticídio, fratricídio, etc. Isso porque os animais irracionais agem puramente pelo instinto de sobrevivência. Também somos animais, mas o que nos diferencia dos outros é a nossa consciência, justamente o que nos torna melhores. Somos capazes de controlar nossos impulsos selvagens, analisar nossos atos e poder contemplar algo além. A consciência é o que causou a evolução da sociedade, o que nos permitiu dominar o planeta e evitar nossa própria extinção até o momento. Portanto nossas escolhas conscientes são o que define nosso caráter. Por isso em psicanálise os instintos do homem são chamados de pulsões, para diferenciá-los dos instintos animais, pois podemos reconhecê-los, estudá-los e até mesmo modificá-los. Um homem que não controla seus impulsos não é muito diferente de um animal qualquer.

Ora, o desejo não é uma escolha consciente, é um instinto. Então temos desejos x escolhas, instintos x consciência.

Mas o que fora questionado é: como um homem na idade adulta pode sentir desejo por uma pré-adolescente? Seria esse desejo um distúrbio? Difícil determinar. Quem seria capaz de afirmar de forma absoluta que a homossexualidade é uma doença? Eu não acredito que seja. Na minha opinião, um desejo se torna doença a partir do ponto em que se transforma em obsessão ou compulsão, necessitando então de tratamento.

Alguns alegam que sentir desejo por uma pré-adolescente é um absurdo por que é apenas uma criança e ainda não tem o corpo formado. Esse conceito de atração sempre me confundiu, porque, em todas as coisas, existe o princípio de que o masculino é atraído pelo feminino (polos diferentes) e, na minha opinião, a feminilidade em uma pessoa vai muito além dessa ideia boçal de “peito e bunda”. A feminilidade é o que, pra mim, diferencia uma mulher nata de uma transexual, por exemplo. Pondo a parte o lado psicológico, as vezes o formato dos lábios, dos olhos, a cor da pele, uma pequena marquinha de nascença e, indo além de atributos físicos, uma forma de sorrir, de olhar ou um pequeno gesto já são fatores que podem, por si só, despertar um desejo.

Ora, uma menina dessa idade sem dúvida já desperta o desejo dos colegas na escola, portanto já possui atributos femininos relativos à atração, embora rudimentares. Mas isso não poderia também atrair homens adultos? Mesmo com a chegada da maturidade não ficariam resquícios dessa admiração na memória que nos levariam a uma espécie de excitação nostálgica? Existe um encanto pela beleza na juventude, disso não resta dúvidas. Quantos poemas já não foram escritos inspirados por esse tipo de beleza? São pequenas coisas que as vezes não estão ao alcance da sensibilidade de todos, por isso tal desejo nem sempre é compreendido.

Mas estou falando de algo que está em um âmbito platônico, se entregar a esse desejo já é uma outra história. Embora compreender a natureza desse desejo seja algo difícil, tanto que precisei dedicar várias linhas deste texto à uma humilde tentativa de explicá-lo, o motivo pelo qual o mesmo não deve ser realizado é, e já bastante, apenas um: uma garota dessa idade não tem perfil psicológico para se relacionar amorosamente com uma pessoa adulta, tão pouco tem maturidade psicológica para praticar relações sexuais com pessoas de qualquer idade. É simplesmente incompatível. Segundo a psicanálise de Freud, esse é o início da fase genital, onde a pessoa está começando a aceitar conscientemente sua identidade sexual. Uma relação sexual nessa fase definitivamente seria um estupro, não menos físico, mas muito mais mental, assim como qualquer outro tipo de abuso.

Dito isso, referente ao caráter eu afirmo: o que define o bom caráter de uma pessoa, nessas circunstâncias, é a capacidade dela de reconhecer o seu próprio desejo, seu próprio instinto, mas alegremente dizer não a ele. “Esse desejo eu não posso cumprir porque estará prejudicando a outro”. Vale também dizer que, ao menos eu, coloco o hipócrita entre as pessoas de mal caráter. Muitos comentários disseram que homem de verdade não sentiria atração por uma menina tão nova. Mas o que é ser homem de verdade? Reconhecer seus desejos e enfrentá-los frente a frente ou simplesmente negá-los e se esconder por de trás da hipocrisia?

E, finalmente, qual é a minha indignação e o que quero com este texto? Nada além de que tenhamos a noção de que esses desejos, ou, mais precisamente, pulsões existem e que não são necessariamente uma doença ou um desvio de caráter, mas sim algo natural de que abrimos mão em prol do desenvolvimento da sociedade. Se esses instintos não existissem, certamente não haveriam se manifestado, mesmo que tenha sido de forma grotesca. Não posso afirmar que isso está presente em todos os homens pois não sei o que se passa na cabeça de cada um, mas está presente em grande parte e há muitas evidências que me levaram a fazer essa afirmação. Só que existe uma separação entre o desejo e o ato em si. O verdadeiro mal é a violência, o abuso e o desrespeito. Lutar contra um desejo e vencê-lo todas as vezes não deveria ser motivo de vergonha, mas sim de orgulho.

Termino por aqui e espero que o leitor reflita sobre este texto mantendo a mente aberta, livre de conceitos pré-determinados. Também espero que o leitor que possua esse tipo de desejo encontre nestas palavras as razões para não colocá-los em prática.

Um grande abraço! Podem xingar mas, por favor, não removam meu texto kkk.

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7 thoughts on “Valentina, 12 anos: o gatilho de uma realidade que incomoda.”

  1. Concordo com boa parte do texto. É saudável o desejo masculino pelo feminino, como também o contrário.

    Entretanto em todas as situações temos de ponderar as coisas. A menina em questão tem um rosto lindo, e mais a frente pode se tornar uma linda mulher. Mas por enquanto é apenas uma linda criança.

    Não existe nada demais em se admirar da beleza dela. O problema é quando os marmanjos perdem as estribeiras, partindo para o lado patológico do desejo. Sendo um pouco prolixo: se todos tivessem dito “nossa, que menina linda!”, e parado aí, tranquilo. O problema é que, segundo o pai da moça, até pediram imagens pornográficas. Então por mais que isso seja um comportamento constante na nossa história, não necessariamente significa que não devemos combatê-lo.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Sim! Mas acho que isso é uma questão de ética e de educação. O problema é que muitas vezes somente o fato de sentir atração por uma pré-adolescente já é tido como uma monstruosidade sem que o cara tenha feito nada.
      Muitas vezes vejo as pessoas falarem “não temos que esconder as meninas, mas educar os meninos”, e é exatamente isso que temos que fazer, mas da maneira correta. Não podemos ficar negando que tais desejos existem, temos é que saber respeitar os outros. Se isso ficar sendo tratado como um desvio de caráter, o cara vai crescer achando que é uma pessoa ruim e se sentir frustrado e excluído da sociedade.

      Curtido por 1 pessoa

  2. eu recomendo aos leitores que pesquisem algo sobre Freud e Kinsei. Nossa concepção sobre desejo está reprimido/oprimido pela cultura judaico-cristã. vivemos recalcados, frustrados porque não conseguimos ainda lidar com nossas pulsões e libidos.

    Curtido por 1 pessoa

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